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Pagª 40 - EDIÇAO NºXXI , IIIº NUMERO  DE MAIO DE 2009 - COMENTARIOS

Direcção Interina de Daniel Teixeira. Chefe de Redacção: Arlete Piedade.
Relações Publicas: Alexandra Figueiredo. Educação e Cultura: Arlete Deretti Fernandes.   

Valdeck é prosa Vanise é poesia

Valdeck e Vanise (sentados)

Quem é Vanise Vergasta

Apresentar um poeta ao público leitor não é uma tarefa fácil. Poesia está fora de moda, como sensibilidade, amor ao próximo, solidariedade (despretensiosa), carinho, respeito, direitos humanos, dignidade, perseverança...

Conheci a poetisa Vanise através do amigo Lázaro Ramos. Vanise é uma pessoa daquelas que você passa na rua e percebe pela beleza, pelo sorriso, pelo carisma. Mas não se pode imaginar que por trás de uma pessoa tão forte, tão determinada, possa existir alguém tão romântica e sensível, a ponto de chorar ao ler uma história de alguém que ela acabou de conhecer. Pois é. Esta é a Vanise Vergasta que conheço!

Uma pessoa que trabalha diuturnamente com emoções, que lapida emoções alheias, que garimpa palavras e que tem «de cor e salteado», todas as suas mais de quatrocentas poesias. E olhe que ela se lembra das vírgulas, dos pontos, das cedilhas, e também da data em que escreveu cada poema... Uma memória formidável.

E uma Memória dessa não pode e nem deve ser deixada de lado (como se faz com nosso patrimônio arquitetônico, artístico e cultural). Deve ser registrada, resgatada, publicada, antes que o tempo se encarregue de varrer para o passado distante.

Como eu falaria de Vanise? Falaria do livro «VI(vi) Vidas (no prelo)? Falaria da sagitariana de 05 de dezembro de 1961? Da Vanise que trabalha como voluntária no Projeto Criamundo do Hospital Juliano Moreira? O que eu falaria?

De seus poemas, de sua memória extraordinária, de tudo o que já falei anteriormente, sem ser redundante e repetitivo?
Eu declamaria aqui, LENDO (lógico, não tenho a memória que ela tem!) cada um dos seus poemas, e mesmo assim acredito que ainda faltaria muita coisa para ser dita.

Pois esta poetisa de nascença (escreve desde os nove anos de idade) é um poço sem fundo de emoções, de talento e de inspiração, de onde surgem poesias como «Meu Casebre» ( ver nesta página) que fala do sonho da casa própria e de tantos outros que trazem à tona toda a beleza que somente uma mulher pode externar.

Vanise é mãe, é filha, é BOAdastra (não gosto da palavra MAdrasta), é vizinha, é amiga, é voluntária de um projeto social, ela é Vanise Vergasta.

A Bahia está sabendo, agora, que existe uma nova estrela no céu do nosso Estado e que essa estrela, medrosa de não conseguir ser vista, busca refúgio em seu mundo literário e artístico...

Não se esconda Vanise, esta é a hora de você dizer pra que veio, nesse Brasil que teima em ser insensível a pedras preciosíssimas como você, que nem mesmo necessita de lapidação!

(Valdeck Almeida de Jesus)


Vanise Vergasta

WAGNER

O Poeta das Flores
O meu poeta maior!
Poeta de todas as horas
O meu poeta maior!
Esperança que nasce em meu coração
Tudo em ti será eternamente
Amor e luz, intensidade e vida!
Dia e noite / noite e dia
Amo você Wagner, amo!
Sou filha dos teus olhos!
Flor de tuas flores
Luz do teu olhar
O meu poeta maior
Raio de luz...Vida!
Esperança, carisma.
Sol que ilumina!


MEU LUXUOSO CASEBRE

Moro em várias casas
em várias barracos
em várias ruas
em várias avenidas
em várias alamedas
em vários condomínios
em várias esquinas
em vários prédios
em várias mansões
em vários becos
em vários casebres!
Em todos os cantos!
Canto minhas tristes canções,
Sinto um aperto no coração
E nenhum aperto de mão!
Sabem quem eu sou?
Sou um Morador de Rua
No meio da multidão,
Em eterna e inseparável
Solidão, muitas vezes
Sem um pedaço de pão!


DEUS, SOCORRO...

Por que será que na minha vida eu estou sempre dando 10 passos para frente e 20 para trás?! O problema está em mim, eu não sirvo para viver.

Vivo, sim, para servir aos outros. Estou sempre pronta a doar.Tenho sempre um ombro amigo para quem procura repouso; tenho sempre palavras de conforto, de carinho, de solidariedade, de amor e de paz!

E sofro quando não disponho de tempo para atender os que pedem, suplicam, imploram por minha ajuda, assim como aconteceu com Jorge Carvalho e Deise, com Noilson e tantos outros...

O que está acontecendo, Senhor!? Até quando vou carregar
essa cruz?! Não estou agüentando mais. Não estou...

Hoje foi a gota d’água. Tudo é tão sombrio, tão triste, tão sem sentido...

Assim como se revela a própria vida!

 

Quem é Valdeck Almeida de Jesus
visto por Valdeck Almeida de Jesus

Nascido em Jequié, em 1966, em plena vigência da Ditadura
Militar, colheu os frutos malditos que o Planalto Central sequer imaginava estar nascendo Brasil afora: a fome, a miséria, a falta de habitação, falta de escola, falta de saneamento básico, falta de segurança, falta de atendimento médico. Enfim.

Filho de mãe paralítica das pernas (Paula Almeida de Jesus) e de um trabalhador braçal (João Alexandre de Jesus), tendo mais sete irmãos menores, não teria outra perspectiva de vida senão as drogas, a violência, a condenação ao analfabetismo e à exclusão social, banido do rol da cidadania plena.

Perdeu seu pai aos dezesseis anos, ficando co-responsável, juntamente com sua mãe, pelo sustento e rumo da família desde então.

Sua mãe era analfabeta total, tendo aprendido a ler e a escrever com o filho Valdeck que, pacientemente, introduziu a sua querida mamãe no mundo das letras.

Paula, apesar da pouca instrução, tinha um senso de responsabilidade muito grande, inclusive quando ficou viúva e solteira por toda a sua vida, até sua morte em junho de 2000.

Dedicou todo o seu tempo a cuidar e a educar os filhos, à sua maneira, sempre indicando a alternativa do bem quando se vislumbrava a sedução pelo caminho das drogas, do roubo e da mentira.

Educou os filhos à moda antiga e cuidava como uma loba de suas crias, defendendo a todos com unhas e dentes. A família precisou comer carne podre; pegar mortadela, salame e queijo dentro do esgoto do Hospital Prado Valadares; dormir várias noites com fome, esperando que «Jesus vai trazer amanhã», que era a frase que Paula dizia para consolar a oito filhos famintos.

A família foi expulsa várias vezes das casas que alugavam, depois de vencido o prazo do pagamento do aluguel, por absoluta falta de dinheiro. Passou mais de vinte anos mendigando pelas ruas da Cidade Sol (apelido da cidade de Jequié), vivendo à custa de esmolas de quem se compadecesse.

Enfrentou tuberculose, asma brônquica (por subnutrição), noites de chuva com a mobília na calçada, após ser expulsos de onde morava.

Enfrentou a vergonha de empurrar a mamãe ladeira acima e ladeira abaixo, numa cadeira de rodas quebrada...

Mas venceu.

Toda a vida da família foi marcada por baixos e mais baixos ainda, mas Paula, a mamãe sempre manteve viva a chama da esperança e da fé: «O ano que vem as coisas melhoram«, era o bordão predileto dela.

Ficavam os filhos esperançosos e pacientes esperando o ano que nunca trazia melhoras. A educação básica, em escolas públicas, Paula concedeu aos filhos.

Dali cada um partiu para um mundo de descobertas de que também era possível sobreviver às próprias expensas. A luta foi insana, e para alguns da família a luta ainda continua hoje não mais tão ingrata quanto antes.

Atualmente todos se consideram vencedores. Cada um com sua própria casa, sua própria família.

O mais velho, Valdeck, é funcionário do Tribunal Regional do Trabalho da 5ª Região, desde 1990.

Este resumo da vida de uma família não consegue passar toda a tragédia e dor que os «Almeida» enfrentaram nos últimos anos, até conseguir conquistar um lugar ao sol.

Esta história, porém, é um exemplo de vida para muitos brasileiros que lutam no dia a dia dos ônibus superlotados, que ralam no batente diário por um mísero salário.

A fé no futuro e a luta por um mundo melhor é a tônica que levou a família Almeida a chegar onde chegou: um lugar tão sonhado por muitos e conquistado por poucos.


20 Anos sem axé

Saí na quinta-feira, 03.02.2005, em pleno carnaval, com meu filho Júnior para dar uma olhada no Circuito Batatinha, Centro Histórico de Salvador.

Pensava sobre o que Daniela Mercury havia falado, em uma entrevista televisiva, enfatizando que a Axé Music não possuía registro histórico, quando, de supetão, fui indagado por Júnior: «Pai, por que só tem negão tocando nas bandas
aqui no Pelourinho?»

Permaneci em silêncio, por alguns instantes, analisando aquela curiosa pergunta de um garotinho de sete anos de idade. Precisava de alguma inspiração para dar a Júnior uma resposta plausível e de simples compreensão para a sua mente ainda em formação.

Para simplificar, respondi que somente os negões gostavam
de tocar e dançar, evitando entrar em detalhes político-sociais, que ele não compreenderia. Cheguei em casa com a pergunta do moleque ainda retumbando em minha mente. E resolvi respondê-la a mim mesmo, da seguinte forma:

A Axé Music tem vinte anos de estrada na Bahia. E de onde vem esse ritmo? Não é difícil deduzir: da Africa. São vinte anos dessa sonoridade que nasceu do coração e da alma de negros, mulatos, mestiços... É o som do carnaval e da folia.

Atualmente, os circuitos carnavalescos da Bahia são invadidos por uma diversidade de ritmos, como o rock, o pop, o pagode, o samba, o arrocha e tantas outras riquezas musicais que a alma desse nosso povo produz. Esse povo que, mesmo passando o ano inteiro no maior aperto, encontra disposição e alegria para se esbaldar na avenida, na Barra ou no Pelourinho, na frente de blocos escorchantes, ou simplesmente vestidos com a fantasia da pobreza: o abadá de pipoca.

O que seria do carnaval e da expressão musical da Bahia sem o axé da Mãe �frica? O que seria de cada bloco sem os «cordeiros negros, mulatos e mestiços» para proteger o cortejo de dondocas?

O que seria do sucesso das rádios sem os gritos e acordes das múltiplas inspirações que vêm dos guetos? O que seria do «gueto», do camarote andante? O que seria dos trios-elétricos sem seus motoristas, saídos do útero da Mãe Africa, e sem os artífices que os constroem e reconstroem?

O que seria dos instrumentos sem dedos, bocas, braços, pernas, e sem a alma negra que lhes dá vida? O que seria do turismo e das empresas que lucram com a festas carnavalescas se não fossem os negros, mestiços, mulatos, filhos da AxéAfrica?

O que seria do turista, do nativo, sem o churrasco, sem a cerveja gelada, sem a água mineral, sem o picolé e tantas outras iguarias que os filhos da �frica vendem pelos circuitos
da folia?

Muitas outras facetas poderiam ser aqui abordadas, mas faltam a este humilde escritor pesquisa e conhecimento suficientes para organizar um estudo aprofundado de ordem filosófica, social, cultural e econômica. Deixo esta tarefa para os doutores, que certamente estão ainda descansando da última noite de Axé.

São vinte anos de Axé Music, desse ritmo contagiante e indescritível que levou tantos desconhecidos a brilharem nas
telas de TV do mundo inteiro. E será essa mesma Axé Music que, se não retornar ao berço de seus criadores, se não cuidar de suas galinhas dos ovos de ouro - a população negra e nativa -, irá transformar, cada vez mais, este nosso tão bonito carnaval numa festa para poucos.

Alguém já se perguntou por que cada vez menos gente tem freqüentado as «terças da bênção»? Alguém se lembra de como ficava lotado o Pelourinho há dez anos atrás? Os filhos da Africa vinham ao Centro Histórico dançar num «Bar do Reggae», que tinha suas portas abertas; a maioria da população trazia o dinheiro do «buzu», e mais algum para o cravinho (muitos desfilavam a noite inteira com o mesmo copo de cravinho na mão).

Hoje a situação financeira dessa gente não mais lhe permite atravessar os limites de seus bairros para irem até a «cidade», que é como chamam o centro, os bairros nobres – como se eles não morassem, também, na cidade de Salvador.

Salve Luís Caldas, Sarajane, Gerônimo, Baby Consuelo, Moraes Moreira, Armandinho, Dodô e Osmar! Salve os nossos músicos, intérpretes, radialistas, jornalistas, enfim, todos os que contribuem para divulgar o som e o ritmo da Terra da Felicidade (hoje, de poucos)!

Nota: Os Poemas e Textos constando nesta página são parte integrante do livro «Valdeck é Prosa e Vanise é Poesia», edição dos autores. Para qualquer contacto com os mesmos visite o site.