Pagª 33 - EDIÇAO NºXXXI, IVº NUMERO DE JULHO DE 2009 - COMENTARIOS
Direcção Interina de Daniel Teixeira. Chefe de Redacção: Arlete Piedade.
Relações Publicas: Alexandra Figueiredo. Educação e Cultura: Arlete Deretti
Fernandes.
Histórias da Vida Real

Crónicas por Martim Afonso Fernandes
«Boca Livre», o Repórter Mentiroso
(que aumenta, mas não inventa).
Como nas rádios de interior geralmente tem aqueles que gostam de contar
histórias e dão oportunidades para se formarem repórteres populares como
freelancers, ali não era diferente.
Este dito repórter era um bisbilhoteiro e fofoqueiro, tanto assim que sua
alcunha era Boca-Livre. Houve mais de uma ocasião em que levou uns tapas na
orelha e também foi chamado à delegacia para se explicar ao xerife.
O slogan de Boca-Livre era: - «Eu aumento, mas não invento». As notícias
anunciadas por ele eram duvidosas, embora guardassem no fundo alguma
verossimilhança.
Um dia ele passava próximo ao reservatório de água da cidade, e, por acaso
estavam a fazer limpeza e a colocar fogo no lixo que podia ser queimado.
Boca – livre com seu transmissor portátil chamou a Rádio Central e mandou
colocar no ar:
-Notícia de primeira mão, atenção, atenção, estou a passar aqui na Caixa
Dágua e há um foco de incêndio, está a pegar fogo na caixa dágua!.
Bastou meia dúzia de viventes ouvirem a notícia e sairem a correr e a gritar
para quem não sabia:
- Fogo na Caixa dágua, venham ver! E muitos correram para testemunhar a
trajédia. A curiosidade impele as multidões.
Os funcionários da concessionária assustaram-se ao ver tanta gente a correr,
chegando ao escritório e perguntando pelo fogo. A resposta era a mais
simples possível: - Estamos a queimar o lixo!
Deste tipo, outras falsas notícias assustaram a população. O rio que banhava
a cidade tinha seus meandros e lugares para aproveitar-se como praia de rio.
As águas cristalinas, as pedras, as árvores, os peixes, davam um ar de muita
beleza ao recanto.
Certa ocasião, houve uma semana de chuva, ultrapassando a média normal.
Boca-livre, o repórter mentiroso, passando em um determinado ponto do rio,
começou a observar que passavam muitos objetos levados pela corredeira.
Estava bem próximo à margem, começou a olhar e chamou o estúdio da rádio.
E anunciava: - Atenção, atenção, estou aqui na curva do rio, bem no local
chamado de Burro Amarrado, de onde posso apreciar muitos detalhes. Devido às
chuvas torrenciais e às cheias que castigaram alguns lugarejos vizinhos de
nossa cidade, muitos objetos estão correndo rio abaixo.
No momento vejo duas cabeças, quatro braços, quatro pernas, alguns pés e um
tronco.
Ao ponto em que Boca-Livre transmitia a fúnebre notícia, os ouvintes
correram para ver com os próprios olhos tamanha desgraça.
Ficaram ali por longo tempo, algumas pessoas. Quando o repórter chegou, foi
questionado: - Deu para conhecer as pessoas mortas? De onde devem ter saído?
Aí Boca-Livre respondeu:
-Vocês não observam direito as coisas? Eram duas cabeças de repolho, quatro
braços de poltrona, quatro pernas de cadeiras, vários troncos de bananeiras
e alguns pés de alface que passaram boiando.
As palavras elogiosas vieram de imediato para Boca-Livre:
-Seu safado, mentiroso, sem-vergonha, inescrupuloso!
A sua mãe, coitada, foi muito aplaudida e a cabeça de Boca - Livre foi muito
ornamentada...
Boca-Livre esperou ficarem em silêncio, e fez um sinal de defesa:
-Por acaso eu falei que eram cabeças, braços, pernas, pés e troncos de
gente?
Não falei... Vocês, povo desta cidade precisam ser mais otimistas quando
ouvirem as coisas. Finalmente, eu aumento mas não invento. Por isso sou o
Repórter Boca-Livre!
Os homens também choram!
Conto
Por Arlete Piedade
Eram apenas sete horas da manhã, naquele dia do início de Março, mas o calor já se adivinhava insuportável.
O carro estava parado na fila do meio na auto-estrada , como em todas as manhãs dos últimos cinco anos e Manuel tentava conter a ansiedade como sempre em todos os outros dias em que se dirigia para o trabalho.
Ligou o rádio num gesto entre impaciente e resignado. Já sabia o que ia
ouvir:
- Senhores ouvintes, a temperatura prevista para hoje em Lisboa, situa-se
entre os 35º graus de máxima e 25º de mínima. Alerta laranja activado em dez
distritos do continente. Alerta vermelho na zona da grande Lisboa e grande
Porto. Não se esqueçam de levar consigo as garrafas de água para manter a
hidratação! Não expor a pele directamente ao sol! Crianças e velhos devem
manter-se em casa!
– E prosseguia o locutor:
- Trânsito congestionado nas principais vias de acesso á capita! Também no
grande Porto e na Via de Circunvalação trânsito com demora acentuada! – mas
Manuel já nem ouvia o locutor, era sempre assim todas as manhãs. Tocou no
comando instalado no volante, para procurar uma outra estação de rádio, que
lhe desse música relaxante e calma!
Mas só encontrava os sucessos barulhentos do momento....Irritado desligou o rádio. Olhou pela janela e reparou na ocupante do carro ao lado.
Ela sorriu-lhe e ele retribuiu o sorriso fazendo um gesto de resignação que pretendia abarcar as filas e o trânsito e o mundo em geral.
Ela retribui com um encolher de ombros e ele não pode deixar de reparar naqueles ombros morenos, que estavam desnudados pelo vestido.
Não conseguia ver bem, mas aparentemente ela usava um vestido ou blusa sem ombros, apenas cingido no busto por aquelas filas de franzidos que estavam na moda.
Os seios pareciam ser grandes e os olhos escondidos atrás dos enormes óculos escuros, apenas se podiam adivinhar. Como seriam os olhos dela?
Os cabelos eram curtos e louros, com uma franjinha caída para a testa ampla. O trânsito na fila ao lado avançou e a mulher arrancou devagar.
O carro dele não saiu do mesmo local entretanto, mas Manuel não se irritou. Sabia que dentro em pouco se voltariam a cruzar mais á frente noutra fila.
Agora era a sua vez de arrancar. Seguiu em frente devagar, quase automaticamente, e voltou a ligar o rádio. Agora passava uma música antiga de Elton John. Ficou a ouvir e a recordação da esposa voltou com maior força agora. Era sempre assim. Em qualquer circunstância do dia a dia, inesperadamente, lá voltava o fantasma do passado para o atormentar.
De repente viu-a á sua frente, como naquele dia em que ela lhe tinha pedido
o divórcio. Escutou as suas palavras agressivas de novo:
- Vai-te embora de vez! Deixa-me em paz! Nunca me amaste! Vai para as tuas
amantes! Para que me hei-de esforçar para te dar esse filho? – Para ficar no
mundo mais uma criança sem pai?
Ela não o compreendia, nunca tinha compreendido a sua necessidade de ter um filho para dar continuidade ao seu nome, para lhe fazer companhia e brincar com ele. Como sonhava com esse filho!
Imaginava que iriam passear ao parque, que dariam grandes caminhadas, que iriam jogar á bola, imaginava que ensinaria ao filho tudo que tinha guardado dentro de si, fruto de longas horas silenciosas de reflexões, as descobertas sobre o coração humano, as tentativas inglórias de compreender aquela mulher que era sua desde a infância comum passada na aldeia!
Ela sempre tinha sido sua, continuava a ser sua, mas como lhe fazer entender isso? – Agora era tarde, pensou pela milésima vez. O divórcio tinha sido decretado na semana anterior, era um facto irrevogável que no entanto não sabia se iria aceitar alguma vez.