EDIÇAO NºXVI , I1º NUMERO DE ABRIL DE 2009 - COMENTARIOS
Direcção Interina de Daniel Teixeira. Chefe de Redacção: Arlete Piedade
Nhu Lobo
Senhor Lobo – figura mÃtica da fábula cabo-verdeana
Conto de João Furtado
O homem é um animal de vÃcios, sem dúvidas que é. Eu, por exemplo, não bebo e já deixei de fumar há anos. Podia me gabar que não tenho vÃcio nenhum, mas como costume dizer, puro engano. Tenho vÃcios, um dos meus vÃcios é muito recente. É contar história para os meus filhos.
Mas, os meus filhos têm outros vÃcios, ver desenhos animados. Desenhos animados vieram matar os contadores de histórias. Ninguém pode obrigar alguém a sentar-se horas e horas, se não quiser. A minha sorte é a Electra, nossa empresa de electricidade, pelo menos uma vez por semana nos deixa sem energia. Totalmente as escuras.
É nestes alturas, a luz das velas ou candeeiros de petróleo que são solicitados os meus serviços. É nestas alturas que me faço cansado e sem vontade de contar histórias. É nestes momentos que o papel se vira. Sou eu o procurado e eles os necessitados. É nestes momentos que sinto o doce prazer de ser importante. Vã vaidade humana. Eles sabem que acabam sempre conseguindo e eu também… o vicio de ver todos ajoelhados aos meus pés é sempre superior a quaisquer outros prazeres.
Sei que se não começar no momento próprio, uma bola, um arco ou simplesmente um antigo acontecimento corriqueiro na escola poderá desviar a atenção dos meus ouvintes. Meu único e fiel aliado, a incompetência da Electra, nunca me perdoaria. Para que ganharia ela o premio de pior empresa do ramo do mundo em particular e do universo em geral?
É meu pequeno e exigente público esta a espera e vou começar, tenho que começar como todas as histórias, não vou inventar nada, mais tenho que mudar quase tudo, porque não posso contar a mesma historia duas vezes.
A interrupção e a vergonha de em coro ouvir - Keli dja nu obi (Esta Já ouvimos)! - é insuportável, tenho que dizer da mesma maneira a mesma coisa, mas para ser diferente aos ouvidos do meu publico, isto é a arte de ter um vÃcio destes. Comecei por, era uma vez…
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A MANUELA, O JOAOZINHO E A MENTIRA
Conto de João Furtado
A Manuela era uma moça prendada. Era a mulher que qualquer homem desejaria. Tinha um único senão.
Morena e formosa. Longos cabelos, muito mais cumpridos que se esperava para uma negra. Nariz arredondado e pouco saliente. Olhos negros e vivos. Peito, dir-se-ia normal, nem muito grande, descomunal, nem muito pequenos, na medida própria. Cintura reduzida em contraste com bela e volumosa anca. Tudo na medida exacta.
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NHU LOBO E SUN TATUGA
Conto de João Furtado
Parece repetitivo, mas é mesmo repetitivo. A energia na praia vai e vem, como se de acaso se trata-se. Hoje aconteceu de novo. Comecei a ver um jogo de futebol. Um jogo entre duas equipas germânicas. E puf. Tudo é escuridão.
Os meninos querem ouvir mais uma historia. Não me apetece contar. Pedem um Nhu Lobo e Chibinho . Ofereço Sun Tatuga. Não gostam, porque não é de cá. Não têm afinidades com Sun Tatuga.
-Não, queremos de Nhu Lobo. Queremos de Nhu Lobo!
-Esta bem, vou vos contar um. Este nunca vocês ouviram. Mas será de Nhu Lobo e Sun Tatuga.
Ficaram um pouco reticentes com a ideia, mas aceitaram. Não tinham muito para imporem, pois podiam perder tudo.
Comecei assim: Era uma vez um dia em que…
...O Nhu Lobo foi visitar o Chibinho. Era uma visita de despedida. O Nhu Lobo
resolvera emigrar. Tentou a América, mas não conseguiu. Pediam marinhos ou
pescadores. Ele até disse que era pescador, mas não tinha Cédula MarÃtima.
Ainda, a boa maneira crioula, quiseram dar-lhe uma mãozinha, mas quando o mandaram fazer teste de natação tudo desfez-se. Ele, o Nhu Lobo não sabia. A América queria arpoadores de Baleia.
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OVOS DA TIA GANGA
Conto de João Furtado
Estávamos sentados a frente da televisão. Eu a querer por nos jogos. A minha mulher nas telenovelas. As crianças nos bonecos animados. A nossa casa estava que nem a Torre de Babel. Ninguém entendia a mesma lÃngua.
Tudo por causa de uma caixa com 76 cm de cumprimentos. Pensava eu, mas estava enganado, não era a caixa o culpado era…
A energia eléctrica foi-se naquele momento. Ficamos todos na perfeita escuridão. A guerra acabou. A luz de vela, sentamos e a rir, conversávamos lindamente. A minha filha mais nova me pediu para contar uma história.
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PROSA POETICA
Por Armando Sousa
Quando o dia desponta por entre montanhas com a luz ténue da alvoradas, estrelas
a desaparecer com a claridade, sentimo-nos satisfeitos que esse dia seja duma
suavidade sem medidas, esse dia nos traga o perfume paradisÃaco duma rosa.
Esperamos que os raios do sol sejam de uma macieza sedosa aveludada.
Esperamos que o verde seja lindo e suave em matiz , exactamente como o verde
primaveroso.
Queremos sentir os jardins a despontar, flores a sair por entre o verde,
tornando em mil cores o canteiro, lindo e suave, primavera em flor. Gosto de ver
nas alvores os balõezinhos a sair, a folha ou flor que desponta, essas são as
cores da vida a sorrir como as borboletas que voam a nosso redor, deixa nossa
mente sair da noite e entrar na realidade.
São momento que sentimos pela vida grande amor
Sim , amo a natureza que me dá essa visão e perfume suave tornando a vida cheia
de ternura.
Nesses momentos eu sinto tanto a perda daquela que me depôs na vida, mesmo sem
saber o tempo determinado que aqui permaneceria comigo.
É em sua memória que quero ver nascer a primeira rosa, e em pensamento a doar
àquela que partilhou comigo seus braços, pão, os seios, suas lágrimas e seus
sorrisos.
Este jardim terreno gostaria de o partilhar com aqueles que enxugaram minhas
lágrimas ao saber de meus desesperos , das tristezas que assolavam a minha vida.
Outra rosa que nasça, irá o cheiro para os nobres do coração e de puros
sentimentos.
Terei algumas para os ricos que por todos os meios procuram minorar a enorme
pobreza que devora a humanidade sobre a terra, estes assim calando a dor e
miséria.
Gostaria de ter rosas para todos aqueles que o amor ao próximo está alojado em
seu coração, e se dilacera se não encontra meios para enxugar lágrimas de dor
causadas pela doença da S.I.D.A. do câncer, da mulher e do homem, e os medos de
uma guerra sem razão, onde apenas os bens dos outros estão em causa.
Aqui vai para meus professores, os meus mais puros botões; estes que tanto
procuraram ensinar-me , nas contas de igualdade, nas redacções e divisões.
A meus amigos também, que não usavam hipocrisia, para entrarem em meu coração.
Um pensamento para todos que foram meus amigos e foram obrigados a me deixarem
eternamente, construindo no silêncio a minha grande saudade, das borgas e cantos
que entoamos juntos.
O cheiro da rosa para todos que me fizeram rir, gargalhar ou até mijar e chorar,
desta maneira minorando a minha dor.
Para meus grandes amigos virtuais, que eu em pessoa nunca vi, mas em pensamento
sim, moram comigo aqui, na inconsciente morada de meu pensar; quantas vezes
passeio e voo com eles no meu dormir, me rio, choro com eles lendo seus poemas e
escrevendo os meus depois de acordar.
Não me esqueci de vós, que reconheceis os artigos que escrevo para o jornal e
fazeis as criticas conforme eu as mereço, para aqueles que tiram tempo para
agradecer as verdades que escrevo nas minhas reportagens, e mesmo para aqueles
que acham que a verdade os diminuiu, e prefeririam ler mentiras minhas.
Para estes reservo o perfume duma flor verdadeira.
Para meus filhos e netos que tantos momentos de alegria nos vem dando com a sua
proximidade, e satisfação de trabalho e honestidade, para esses reservo os
passeios de meu jardim, a entrada da minha porta, além de tudo que é meu, também
meus braços e meus coração.
Mas todas as flores, nascidas e por nascer, iram para aquela que me tem ajudado
no meu viver, essa que me acompanha, a todos os lugares, quer seja para escrever
para comer ou passear, passar tempo ou conversar.
Ou mesmo para me repreender ou fazer lembrar; para essa sim não vai só as
flores, mas todo o meu ser, todo o meu viver.
Quando o dia desponta depois da noite, quero me levantar sem nada doer agarrar o
mais belo sorriso e com ele meu coração de lealdade lhe oferecer.
Meus amigos por vezes quero prosear e então deixo a minha mente vaguear com amor
por todos os lados, tambem tenho muitas amigas, que gostam de ler estas coisas
por mim escritas, que apenas galvaniza os pensamentos, que vem embrulhado em bem
e amor.
Para todos vós um grande abraço do Armando.
O DIA DOS ENTERROS

Conto de João Furtado
Recebi com consternação a notÃcia. Convivemos com a morte desde que nascemos, mais jamais nos habituamos com ela. Principalmente se conhecemos a pessoa que morreu, como era o caso.
A Didinha era minha amiga e prima afastada da minha mulher. Mas era prima e graças a Deus somos um povo muito ligados por laços parentescos. Não creio que exista outro povo que tenha uma famÃlia tão grande como a nossa. A Didinha era minha prima, casei com prima dela.
Iria para sua última morada as quinze horas. Era esta a informação que chegara até mim. Não podia faltar a cerimónia. Teria que a acompanhar. Ela jamais me perdoaria.
A Didinha morava na Achada Trás e eu em Lém Ferreira. O Enterro teria que forçosamente passar por Lém Ferreira. Iria esperar na estrada, pelo cortejo. Por enquanto temos apenas um Cemitério na Cidade da Praia. Está constantemente a romper pelas costuras. Já foi várias vezes estendido. Os serviços camarários sabem que a Cidade esta a pedir outro Cemitério, mas ninguém tem coragem de mandar construir outro. Todos têm a certeza inabalável que seriam o primeiro cliente da nova casa. Se é verdade que a morte é certa, também é verdade que ninguém a deseja por esposa.
A Didinha era negra e bela. Somos um povo mestiço. A nossa cor adivinha sempre uma mistura. Mesmo nos mais negros adivinham-se sempre uma certa mestiçagem. Mas na Didinha era difÃcil ver nela mais que a beleza da pura raça negra, nem precisava pintar os lábios, pareciam pintados de verniz preto, de tão negro que era.
Nenhum olhar masculino era inocente quando o alvo era a Didinha. Ninguém resistia aquela beleza selvagem. E vê-la andar… Era dengosa e a sua curva saliente, formada por contraste de seu volumoso e arredondada coxa e fina cintura, cadenciava no movimento rÃtmico do esquerda, direita ao som do batuque inexistente… Não deixava nenhum ser humano de sexo masculino indiferente.
Não vou falar do rosto angelical dela. Se anjo negro existisse, os escultores
inspirariam na Didinha para as esculturas, mas não existiram, hoje ela vai ser
enterrada e muito provavelmente toda a beleza dela irá terminar debaixo de um
palmo e meio de terra.
Ela tinha uma saúde de ferro. Era peixeira. Passava a vida a vender peixe. Ela
vendia o peixe por quase todas as portas de Lêm Ferreira.
A Didinha tomava o autocarro a porta da casa ia até ao cais, comprava peixe. Fazia resto de viagem a pé levando na cabeça um grande alguidar com água e peixe, no total o alguidar teria no mÃnimo 30 quilos ou mais. A água serve para que o peixe apresente sempre fresco aos olhos do comprador.
A Didinha vendia peixe e só regressava a casa a noite. Nunca almoçava. Embora tivesse oito filhos, ninguém a dava mais de 25 anos. A morte não só apanhou a Didinha desprevenida como nos apanhou a todos seus amigos, familiares e compradores do seu peixe. Ninguém esperava que ela morresse. A lamentação era geral.
Preparei-me para ir ao enterro. Procurei a roupa com cuidado, alias, a minha mulher teve o cuidado de me supervisionar. Não podia levar nada que tivesse um pingo de vermelho ou cores similares.
Quis levar comigo um livro, para ler enquanto esperava pelo cortejo. A minha mulher achou que eu não devia levar. Não seria de praxe. Sem ela, a minha mulher, ver apanhei um livrinho de bolso e levei escondido.
Fui esperar na rotunda de Lém Ferreira. A minha mulher não foi, não se sentia bem. Ela estava exausta, ela tinha passado a noite acordada no nojo enquanto eu dormia.
Cumprimentei algumas mulheres que encontrei lá. Provavelmente ia ao mesmo enterro e estavam também a espera do cortejo. Sentei sobre uma pedra e comecei a ler, enquanto esperava. As mulheres falavam entre si. Era normal.
Não sei quanto tempo esperei. Veio o cortejo ao passo do caracol. Entrei nele e fomos rumo ao Cemitério da Varzea. Ia acompanhar a bela e querida Didinha para sua última morada.
Entrei num grupo de religiosos. Estavam a rezar o terço a Virgem Mãe, a Didinha foi mãe, também foi pai, mas isto é outra história. A Didinha merecia ser comparada com a Virgem Mãe.
�amos a pé, quase sempre vou a pé para os enterros. Uma das causas é porque não
tenho nem carta de condução, nem carro. Outra razão é porque sempre vão muitas
pessoas a pé, porque iria eu de carro? Continuamos a rezar as Ave-Marias, as
Santa-Marias e os Pai-Nossos. Terminamos com uma longa Ladainha própria para
cerimónias destas. Por fim o improvisado chefe da cerimónia pediu para a
defunta…
-Rezemos uma Ave-Maria e Um Pai-Nosso para a alma do José, mais conhecido por
Don, que Deus tenha piedade da sua alma.
Eu estava no enterro errado. Não era o enterro da Didinha, não rezei pela alma
da Didinha, mas pela do Don.
Veio a minha memória um poema que fiz a anos sobre dois irmãos que o destino fez
deles pequenos delinquentes. Será que era um deles que morreu? Pergunto ao
vizinho de lado. Nestas coisas nada melhor que perguntar o vizinho de lado.
- O que é feito do irmão?
- Está na cadeia, – respondeu-me o vizinho da circunstância – nem o dispensaram
para o enterro. Esta gente não tem coração.
Senti o meu corpo a estremecer desde a unha dos pés até os fios de cabelo. Fui
um profeta. Previ a vida dos dois irmãos gémeos. Estou no enterro de um, por
engano, enquanto o outro está na cadeia. Bem feito, quem me mandou escrever
isto? Era a vida privada deles:
Outra Metamorfose Comum e Rara
Duas crianças, dois inocentes
Gémeos e irmãos
Pequenos e insignificantes
Don e Don-Don
Duas crianças, dois inocentes
Gémeos e irmãos, duas crianças
Sem conduta a conduta
de Don e Don-Don
Pequenos e inocentes
E tal como todas crianças
A mãe os defendeu enquanto pode
E como mãe que era
Tudo que ganhavam
A mãe levavam
Don e Don-Don
Duas crianças, dois inocentes
Gémeos e irmãos, duas crianças!
Dois adolescentes, dois inocentes
Gémeos e irmãos
Pequenos e não tão inocentes
Não tão Don e Don-Don
Novo nome foram baptizados
Pimenta e Malagueta, terror da Praia e arredores
Dois adolescentes, dois inocentes
Gémeos e irmãos
Pequenos e não tão inocentes
Esfarrapados e espancados
Fruto da sociedade que foi cega
Fruto da sociedade que é juÃza
Dois adolescentes, dois inocentes
Gémeos e irmãos
Pequenos e não tão inocentes
Detidos e soltos, soltos e detidos
Menores e sem tratado
Menores e sem trabalho
Menores e sem famÃlia
O pai na cadeia civil
E a mãe no tribunal
Dois adolescentes, dois inocentes
Gémeos e irmãos
Pequenos e não tão inocentes
Dois Adultos, dois culpados serão
Pimenta e Malagueta
Gémeos e irmãos
Juntos ou separados
Na campa ou na cadeia
No hospital ou no hospÃcio
Dois Adultos, dois culpados serão
Pimenta e Malagueta
Gémeos e irmãos
Filhos da sociedade cega e imoral
Filhos da sociedade juÃza e carrasca
Dois Adultos, dois culpados serão
Pimenta e Malagueta
Mas, agora revejo tudo, no poema tinha posto todos os cenários. Não fui profeta nenhum. Segui até cemitério. Senti-me no dever moral de acompanhar o Don a sua última morada. Graça a Deus os enterros são todos iguais. No cemitério e na dor não existem diferenças. Os próximos choram e pedem para serem enterrados em solidariedade ao defunto. Os não tão próximos, choravam pelos seus mais próximos falecidos mais ou menos recentes.
Resolvi esperar no cemitério o cortejo da Didinha. Fui sentar e esperar. Veio
uma senhora. Sentou ao meu lado. Ficamos sentados e calados por algum tempo. Ela
não resistiu e disse:
-Coitado do Don, morreu na flor da idade.
-Sim, o irmão gémeo teve melhor sorte – respondi enquanto imaginava a morte do
Don - está preso!
Na minha imaginação o Don havia sido morto. Ninguém me disse, mas isto era coisa da PolÃcia. Estavam fartos de o prender. Levavam ao Tribunal e saia livre. Não fora preso dentro da Lei. Tinha a história do flagrante delito. A historia do prazo de apresentação. Os detalhes da legalidade que eram sempre esquecidos pela Policia. Principalmente quando se tratava de pequenos larápios.
É irritante ver esta gente a roubar ninharias diariamente. Apenas para suprir o dia a dia. Porque não fazem grandes roubos? Podiam reduzir a quantidade pela qualidade.
Tornava a fazer das suas. Ia ao tribunal e era preso, na cadeia sentia-se melhor
que na rua. Tinha tudo que não tinha na rua, por exemplo a televisão. Saia e
tornava a fazer as mesmas coisas. Sofria a mesma pena. Não havia dúvidas. Foi um
polÃcia que o baleou…
A mulher suspendeu a minha imaginação:
- O Don não tem irmão gémeo nenhum. – Disse-me ela – o irmão que está preso é
mais velho mais de dez anos. Este sim, o António é que devia morrer. Aldrabão.
Ladrão. E brigão. Não há quem no bairro que não tem uma queixa dele. Muito
diferente do José, o Don, bom rapaz. Pescador exemplar e bom pai de famÃlia.
Morreu de paludismo.
A Natureza tem sua incompreensão. Porque iria morrer um coitado de paludismo
numa terra que não chove. Que…
Ela não deixou-me continuar o meu raciocino:
-Perdeu no bote quando foi pescar, foi encontrado por um navio Grego e deixado
em Dakar. Veio de Avião. Dias depois sentiu febre e tremura. Pensou que era
passageiro e não era. Quando foi ao hospital já era tarde!
Não imaginei mais nada. Puxei do meu livro e comecei a ler, a espera da Didinha,
ia me despedir dela para sempre…